A Estrangeira

Lecionando em um curso de Relações Internacionais, tive uma vez uma aluna estadunidense. Ao contrário dos demais alunos da turma, que se achavam na faixa dos 20 aos 25 anos, J.F. devia estar na faixa dos 40 ou 50 anos. Apesar de se encontrar em solo brasileiro havia mais de duas décadas, ainda não falava bem o português, e seu sotaque era extremamente carregado, como se ela não se esforçasse para falar da maneira como se fala no Brasil.
Nossos conflitos começaram logo na primeira aula. Fazendo uma retrospectiva da história das civilizações ocidentais, referi-me à Idade Média, notando que este longo período é dividido, pelos historiadores, entre Alta Idade Média (a primeira parte, estendendo-se do século V ao X, aproximadamente) e Baixa Idade Média (o período final, iniciado nos séculos X-XI e estendendo-se ao século XV). Fui imediatamente “corrigido” pela aluna, que me informou que a Baixa Idade Média vinha antes da Alta Idade Média. Expliquei-lhe então que ela era que estava errada, pois em português, assim como em francês (de onde provém grande parte da terminologia adotada pelos historiadores brasileiros), diz-se “Alta” para o período mais recuado no tempo, e “Baixa” para o período mais recente – ao contrário do inglês, onde a Baixa Idade Média é anterior à Alta. Ela ainda tentou contra-argumentar, fazendo-me ter de repetir a explicação sobre as formas opostas adotadas por historiadores anglófonos e latinos para se referir aos mesmos períodos. Por mais que se sentisse contrariada, J.F. teria de se adaptar à língua adotada no Brasil, se quisesse realmente integrar-se a esta sociedade. Suspeito porém que esta não fosse sua intenção.
Passadas algumas aulas, referindo-me à maneira como os brasileiros referem-se aos estrangeiros de modo geral, e aos estadunidenses e argentinos de modo particular, utilizei o termo gringo. Imediatamente fui contestado pela aluna, que me informou que nos Estados Unidos esse termo é altamente ofensivo aos brancos. Expliquei-lhe que o mesmo não ocorria no Brasil, onde na maior parte das vezes "gringo" é apenas um sinônimo coloquial para estrangeiro, não carregado de conotações negativas. Expliquei-lhe também que no Brasil, felizmente, não temos a doença do politicamente-corretismo, e podemos usar os termos como gringo, alemão, negro, japa ou galego, sem sermos ofensivos ou preconceituosos – embora também possa ocorrer que estes termos sejam empregados pejorativamente, o que é facilmente discernível pelo contexo em que se encontram. No caso específico de gringo, relatei-lhe que o termo já havia sido adotado inclusive pela linguagem escrita, sendo frequente, por exemplo, seu uso no noticiário esportivo, em relatos de viagens ou em crônicas e novelas – citei inclusive o historiador estadunidense Mathew Shirts, que em artigo no jornal O Estado de São Paulo refere-se a si mesmo como um gringo no Brasil. Por fim, informei-lhe que eu continuaria usando este termo, e que de sua parte, como imigrante, ela devia se esforçar mais para se adaptar ao Brasil e aos brasileiros, em vez de tentar fazer com que estes se adaptassem à sua cultura.
Amiga pessoal do dono da faculdade (que se intitulava Reitor), J.F. conseguiu levar o caso não à Coordenação do curso, instância em que se deveriam resolver os atritos entre alunos e docentes, mas à Direção da Faculdade. Temi pelo meu emprego: o diretor era estadunidense, assim como eram gringos os investidores que estavam adquirindo participação maioritária na faculdade. E aqui presto as minhas homenagens ao diretor T.E., que após ouvir a queixosa aluna, deu espaço para a apresentação da minha versão, apoiando-me incondicionalmente em meu posicionamento. Meu emprego estava garantido – até o momento em que os novos investidores, numa medida de gestão empresarial, substituíram os professores doutores por inexperientes graduados, demitindo-me por excesso de qualificação. Malditos gringos!

Um comentário:

rick disse...

Estive em muitos destes embates e realmente foi dessa forma exposta.